Fabrício Queiroz e o caso das “rachadinhas” na Alerj
O caso conhecido como “rachadinha” começou em 2018, com um relatório do Coaf sobre movimentações de Fabrício Queiroz, então assessor de Flávio Bolsonaro na Assembleia do Rio. Em 2020, o Ministério Público do Rio denunciou Flávio, Queiroz e mais 15 pessoas. Em 2021, o STJ e o STF anularam as provas principais, e a denúncia foi rejeitada em 2022. O mérito das acusações nunca foi julgado.
Caso arquivadoPasta 1 · Assembleia do Rio · 2003 a 2022Atualizado em 25/09/2026
A 5ª Turma do STJ, por 4 votos a 1, anula todas as decisões do juiz Flávio Itabaiana, da 27ª Vara Criminal do Rio, por entender que o caso cabia a outra instância.
A 2ª Turma do STF, por 3 votos a 1, anula quatro relatórios do Coaf usados na denúncia. Votaram pela anulação Gilmar Mendes, Ricardo Lewandowski e Nunes Marques. Edson Fachin votou contra.
Policial militar aposentado, foi assessor de Flávio Bolsonaro na Assembleia do Rio. O MP-RJ o apontou como quem recolhia parte dos salários.
Flávio Itabaiana
Juiz da 27ª Vara Criminal do Rio que autorizou quebras de sigilo e a prisão de Queiroz. As decisões dele foram anuladas pelo STJ.
Frederick Wassef
Advogado que defendia Flávio em 2020. Queiroz foi preso num imóvel dele.
Os fatos, um a um
01ARQUIVADO
O caso conhecido como “rachadinha”
“Rachadinha” é o apelido de um esquema em que o funcionário é contratado com um salário, mas devolve parte dele todo mês para alguém do gabinete. Como esse salário sai do dinheiro público, a lei chama isso de peculato, que é desviar dinheiro público em benefício próprio.
Em novembro de 2020, o Ministério Público do Rio denunciou Flávio, Queiroz e mais 15 pessoas. A acusação dizia que o esquema funcionou no gabinete de Flávio na Assembleia Legislativa do Rio (Alerj), quando ele era deputado estadual, e listava peculato, lavagem de dinheiro, apropriação indébita e organização criminosa.
O caso começou a desmoronar em 2021. Em maio, o STJ anulou as decisões do juiz de primeira instância, entendendo que Flávio tinha direito a ser julgado em outro tribunal. Em novembro, a Segunda Turma do STF anulou quatro dos cinco relatórios do Coaf usados como base. O ministro Gilmar Mendes chamou o uso desses dados de “investigação disfarçada”. Em 2022, a pedido do próprio Ministério Público, o Tribunal de Justiça do Rio rejeitou a denúncia. Em fevereiro de 2025, Gilmar negou os últimos recursos do MP-RJ.
Fabrício Queiroz é policial militar aposentado e trabalhou por anos como assessor de Flávio. Em dezembro de 2018, o jornal O Estado de S. Paulo revelou um relatório do Coaf, o órgão do governo que vigia movimentações financeiras estranhas. O relatório apontava R$ 1,2 milhão circulando na conta de Queiroz de um jeito incompatível com o salário dele.
Para o Ministério Público, Queiroz era quem recolhia o dinheiro devolvido pelos funcionários. Em 2020, Flávio reconheceu que Queiroz também pagava contas pessoais dele.
Em abril de 2026, Flávio disse que Queiroz contou a ele que cobrava parte do salário de algumas pessoas que tinha empregado, mas que fazia isso sem o conhecimento do senador.
A prisão de Queiroz em Atibaia, em imóvel de Frederick Wassef
Em 18 de junho de 2020, Queiroz foi preso pela polícia em Atibaia, no interior de São Paulo. Ele estava num imóvel de Frederick Wassef, que na época era advogado de Flávio.
A prisão fazia parte da investigação das rachadinhas. Com a anulação das provas e o arquivamento do caso, Queiroz não chegou a ser julgado.
Flávio e o advogado Frederick Wassef em entrevista no Senado, 2021. Foto: Agência Senado / CC BY 2.0
1.512 depósitos em dinheiro vivo numa loja de chocolates
Flávio foi sócio de uma franquia da Kopenhagen num shopping da Zona Oeste do Rio. Para o MP-RJ, a loja servia para “lavar” dinheiro, ou seja, fazer um dinheiro de origem suspeita parecer lucro normal de um negócio.
Os promotores contaram 1.512 depósitos em dinheiro vivo na conta da loja. Muitos tinham valores repetidos, como 63 depósitos de R$ 1.500, 63 de R$ 2.000 e 74 de R$ 3.000, sempre abaixo de R$ 10 mil, valor a partir do qual o banco precisa avisar as autoridades. A soma que o MP considerou suspeita chegou a cerca de R$ 1,6 milhão.
A defesa disse na época que entregou todas as informações ao Ministério Público e negou irregularidades. A suspeita caiu junto com a denúncia. Hoje existe apenas uma disputa cível entre Flávio e o ex-sócio sobre lucros da loja.
Loja da rede Kopenhagen em Copacabana. Não é a loja de Flávio. Foto: Eduardo P / CC BY-SA 3.0
A outra forma de lavagem apontada pelo MP-RJ eram negócios com imóveis. Para os promotores, compras e vendas de apartamentos teriam ajudado a esconder a origem do dinheiro. Reportagens mostram ainda que Queiroz depositou R$ 25 mil em dinheiro vivo na conta da mulher de Flávio antes de um pagamento de imóvel do casal.
Como aconteceu com a loja, esse ponto perdeu força quando as provas foram anuladas e a denúncia foi rejeitada. Não houve julgamento sobre se essas compras foram ou não irregulares.
Em 22 de abril de 2020, numa reunião ministerial gravada, o então presidente Jair Bolsonaro disse: “Já tentei trocar gente da segurança nossa no Rio de Janeiro, oficialmente, e não consegui! E isso acabou. Eu não vou esperar foder a minha família toda, de sacanagem, ou amigos meu, porque eu não posso trocar alguém da segurança na ponta da linha que pertence a estrutura nossa. Vai trocar!”. Na época, Flávio já era investigado no caso das rachadinhas. (Brasil de Fato: a fala de Bolsonaro na reunião ministerial (mai. 2020))
Em março de 2022, a PF concluiu que não houve interferência nem crime. Em outubro de 2025, a pedido do procurador-geral Paulo Gonet, o ministro Alexandre de Moraes reabriu a apuração. Em abril de 2026, a PF repetiu a conclusão. O inquérito segue aberto. (Gazeta do Povo: PF repete conclusão e inquérito segue aberto (abr. 2026))
O que diz a defesa
“Toda essa espuma, todo esse ataque para tentar destruir minha reputação.”
Arquivado. A denúncia foi rejeitada em 2022 e os últimos recursos foram negados em 2025. As provas caíram por questões de procedimento e competência, e o mérito nunca foi julgado.
Perguntas frequentes
Quem é Fabrício Queiroz?
Policial militar aposentado e ex-assessor de Flávio Bolsonaro na Assembleia do Rio. Um relatório do Coaf de 2018 apontou R$ 1,2 milhão em movimentações atípicas na conta dele, o que deu início ao caso das rachadinhas.
O caso das rachadinhas foi julgado?
Não. As provas foram anuladas pelo STJ e pelo STF em 2021, a denúncia foi rejeitada em 2022 e o mérito das acusações nunca foi julgado.